É surpreendentemente infantil a animação “Guerreiras do K-Pop”. O filme se tornou o mais visto da história da Netflix e está fazendo sucesso entre crianças de todas as idades. Até mesmo o tenista Novak Djokovic foi visto dançando uma das canções mais populares da película após uma partida do US Open. A plateia foi ao delírio com sua performance do cativante hit “Guaraná”.
Bons motivos não faltam para um sucesso tão acachapante. É muito bonitinha a trama de jovens guerreiras que formam um trio de K-Pop para combater o mal. E o mal nesse caso é tangibilizado na forma de uma boy band das mais açucaradas -secretamente eles são demônios pérfidos e cruéis.
Os visuais são alucinantes. O design das personagens é genérico na medida certa, fazendo com que se pareçam com qualquer outra animação já lançada no mundo, ao mesmo tempo, em que mantém um frescor por conta das referências visuais contemporâneas e típicas do mundo hiperconectado em que vivemos.
Na superfície, a história parece tratar dos pensamentos intrusivos das protagonistas e de como elas farão para superar suas inseguranças. Tem uma que se acha irritada demais, a outra se considera esquisita demais e a principal tem receio de não ser amada quando descobrirem suas características mais particulares. Puro Shakespeare.
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E o pior é que todas elas têm razão e deveriam tratar essas questões fundamentais de suas personalidades na terapia, em vez de socando demônios e cantando músicas pop. Mas tergiverso.
No cerne da aventura, as heroínas disputam o coração (e a alma!) dos fãs com a supracitada banda de garotos que secretamente são vilões. Isso implica na noção de que existe um fandom positivo e um fandom negativo.
Perde-se uma oportunidade de ouro de discutir de maneira mais profunda a problemática da cultura do fã. Pior: em vez disso, reforça chavões do mundinho pop e, de certa forma, celebra a toxicidade desse universo.
Se existe um fandom do bem, estão justificadas as atitudes contra um fandom do mal. É a dinâmica que observamos dia após dia nas redes sociais nos embates entre fãs de uma diva pop contra outra, assim como de bandas de rock ou afins.
Outro problema que observo é a representação das protagonistas como únicas responsáveis pelas próprias carreiras. Elas decidem cada detalhe, muitas vezes em rompantes, como se os artistas musicais não tivessem toda uma estrutura corporativa para além de seus anseios e visões de mundo.
Isso ajuda também a estabelecer um endeusamento das estrelas pop como se fossem maiores que a vida. “Larger than life”, dizem os americanos. É uma música do Backstreet Boys também. De qualquer forma, acredito que essa visão deve ser combatida em vez de reforçada.
“Guerreiras do K-Pop” é inevitavelmente divertido e recomendável para todas as idades. Talvez por ser um filme infantil pensado para crianças, perde oportunidades ao infantilizar um assunto que poderia render diálogos fundamentais sobre nossos tempos.
Transformando a histeria coletiva em um espetáculo colorido, o filme acaba servindo mais como catarse do que como reflexão. Por mim, tudo bem. Mas analisando essa lógica maniqueísta de bem contra mal, talvez os verdadeiros vilões sejam todos nós, que seguiremos dando stream nas ótimas canções enquanto esperamos pela continuação. Confesso que não vejo a hora.
Texto publicado originalmente por UOL.



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